importância do conjugar o sono com a parentalidade

3 da manhã. Olho para o relógio na esperança que ele indique outra hora, mas o meu receio confirma-se. Passou-se uma hora desde a última vez que olhei para estes ponteiros. E por mais positiva que queira ser, provavelmente daqui a outra hora estarei novamente a vislumbrar este visor, antecipando as horas que faltam para me levantar e preparar para um novo dia e calculando as horas de descanso que tive. O meu marido deambula zombie até à cozinha para preparar outro biberão. Se calhar é assim com todos os pais de bebés de 9 meses. Um lado de mim queria que fosse, mas algumas histórias de filhos de amigos que fazem uma noite completa desde as primeiras semanas levam-me a questionar o que estou a fazer de errado. Amo este pequeno ser, mas estou cansada. Para ser verdadeiramente honesta, estou exausta!

A privação de sono é uma componente inevitável de se ter um bebé ou filho pequeno. Ao mesmo tempo também vivemos numa cultura que parece negligenciar a necessidade de descanso e até exaltar a capacidade de se dormir pouco. Frequentemente, o sono é encarado como uma perda de tempo, uma diminuição de produtividade. São, assim, esquecidas necessidades biológicas fundamentais. Tornar-se pai ou mãe agudiza ainda mais a falta de sono.

Um recém-nascido acorda frequentemente durante a noite para ser alimentado e confortado. Muitos pais tentam dormir nas parcelas de tempo em que o bebé descansa, na tentativa de reunirem uma quantidade de sono razoável ao final do dia, mas sendo um descanso fragmentado e interrompido é sentido como insuficiente muitas vezes. E agora mais do que nunca, os novos pais estão algo isolados nesta fase desafiante, com pouco suporte para os ajudar numa missão 24 sobre 24 horas, 7 dias por semana.

Impacto da privação do sono

Esta falta de descanso afecta os novos pais de forma ainda mais significativa do que outras pessoas, uma vez que as alterações de sono se dão por tempo indeterminado, sem que se possa controlar a variável chamada criança.

A privação de sono impacta o humor, funções cognitivas como a memória, atenção, flexibilidade cognitiva (o que permite ver uma situação de várias perspectivas ou alternar entre tarefas de forma fluida) e fluência verbal (capacidade de comunicar de forma efectiva), o apetite e os sistemas digestivo e imunitário, entre outros.

A prevalência de humor deprimido é muito superior quando o sono é fragmentado e insuficiente e as emoções são experienciadas de forma mais intensa, com dificuldade acrescida na sua regulação. As mulheres, em particular, com problemas de sono associados à parentalidade incorrem num maior risco de depressão pós-parto. Durante a própria gravidez, a qualidade e arquitectura do sono já se alteram.

 

O que podem então os pais fazer para melhorar o seu sono?

  • Priorize o sono. Um bom descanso é fundamental para a saúde física e psicológica. A loiça pode acumular-se um pouco e a casa pode ficar menos arrumada. O que tem mais importância deve vir primeiro e o descanso dos pais é prioritário.
  • Delegue. Envolva a sua rede de suporte para garantir que se dedica a si e à criança o mais possível e em tudo o resto aceita apoio, permitindo-se não tentar chegar a todo o lado, com todo o desgaste associado.
  • Construa um ambiente que proporcione uma noite tranquila. Assegure-se que o quarto de dormir é confortável, arejado, isolado a nível de som e com uma temperatura amena, com um bom colchão e almofadas adequadas. Muitos pais investem muito no equilíbrio e qualidade do quarto dos filhos e esquecem-se de assegurar um bom ambiente no seu próprio espaço de descanso.
  • Crie uma janela de desaceleração antes de ir para a cama. Uma a duas horas antes de pretender adormecer, desligue-se de equipamentos electrónicos como televisões, computadores e telemóveis, que influenciam a libertação de melatonina, confundido assim o relógio biológico. Está a contribuir para uma melhor arquitectura do sono.
  • Relaxe nos minutos antes de dormir, seja com práticas meditativas, exercícios de relaxamento, música tranquila, leitura e/ou escrita. Estes exercícios podem ser muito úteis, sobretudo se praticados com regularidade.
  • Ajude o seu bebé a desenvolver padrões de sono saudáveis. Se necessitar, envolva o pediatra para que toda a família possa recuperar um descanso satisfatório.

 

Até um certo ponto, os problemas de sono são inerentes à parentalidade. Mas é importante que os pais não permitam que a privação de um descanso de qualidade se torne num modo de vida. Invista por isso em estratégias de higiene do sono e exercícios de relaxamento para proporcionar um sono de qualidade, o mais frequentemente possível. Se as dificuldades persistirem, não acumule mal-estar: peça ajuda à sua volta e envolva o seu médico habitual para explorar opções de tratamento de insónias. A capacidade de auto-avaliação é fundamental para se identificar pontos de vulnerabilidade e traçar-se um plano de acção adequado.

 

  Publicado por Filipa Jardim da Silva